O Que É Pará?

O Pará é o segundo maior estado do Brasil em extensão territorial, com pouco mais de 1,2 milhão de km², e está localizado na região Norte, sendo cortado pelo rio Amazonas e por sua vasta rede de afluentes. Em termos minerais, o estado é um dos mais ricos do país: seu subsolo abriga depósitos de ouro, manganês, cobre, ferro, bauxita, caulim e diversas outras substâncias minerais de expressão mundial. No imaginário do garimpo brasileiro, contudo, é o ouro que define a identidade mineral do Pará — e dentro dessa história, nenhum lugar concentra mais força simbólica do que Serra Pelada.

A riqueza mineral do Pará decorre da sua geologia diversificada. O norte do estado está assentado sobre o Escudo das Guianas, uma das formações geológicas mais antigas e estáveis do planeta, com idades de 1,5 a 2,5 bilhões de anos. Esse escudo cristalino hospeda mineralizações de ouro, platinoides e gemas em greenstones (sequências de rochas vulcânicas e sedimentares metamorfizadas) e em veios hidrotermais. O sul e o sudeste do Pará — a região conhecida como “Carajás” — contêm uma das maiores províncias minerais do mundo, incluindo as maiores reservas de minério de ferro do planeta e importantes depósitos de cobre, ouro e níquel.

Do ponto de vista gemológico, o Pará é menos conhecido pelas gemas coloridas do que pela sua tradição aurífera, mas registra ocorrências de turmalina, crisoberilo e quartzo em algumas áreas, além do potencial ainda pouco explorado para outras gemas nos terrenos do Escudo das Guianas.

História e Contexto no Brasil

A história mineral do Pará é inseparável da história da Amazônia. Os primeiros relatos de ouro na região remontam ao período colonial, mas foi no século XX que o estado ganhou projeção global como área de garimpo.

Serra Pelada: a maior corrida do ouro da história moderna. Em 1979-1980, um camponês chamado Genésio Ferreira da Silva encontrou pepitas de ouro em um riacho na área da Fazenda Bahia, na Serra dos Carajás, sul do Pará. A notícia se espalhou numa velocidade impressionante. Em poucos meses, dezenas de milhares de garimpeiros — chamados de “formigas” pela imprensa pela forma como subiam e desciam os barrancos carregando sacos de terra — convergiram para o local. No auge, estima-se que entre 80.000 e 100.000 pessoas trabalhavam simultaneamente em Serra Pelada.

A cena era medieval em sua intensidade: a mina a céu aberto criou uma cratera de dezenas de metros de profundidade, escavada inteiramente no braço, sem maquinário. Garimpeiros subiam pelos barrancos com sacos de 50 kg de terra nas costas, em fileiras intermináveis, por escadas feitas de troncos cravados na lama. As fotografias de Sebastião Salgado, tiradas entre 1986 e 1987, tornaram-se ícones do fotojornalismo mundial — imagens que evocam ao mesmo tempo a força épica do trabalho humano e a condição brutal de exploração.

Em poucos anos, Serra Pelada produziu mais de 30 toneladas de ouro declaradas — provavelmente muito mais considerando o ouro não declarado — transformando garimpeiros anônimos em milionários da noite para o dia e outros em miseráveis. O governo militar de João Figueiredo interveio cedo, criando o GETAT (Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins) para administrar a área e tentando manter o controle social. A chegada das máquinas de mineração industrial, prevista para os anos 1990, gerou um dos episódios mais dramáticos da história do garimpo brasileiro: a Batalha do Curionópolis, em 1989, quando garimpeiros armados marcharam sobre Marabá em protesto contra a tomada da mina pela Companhia Vale do Rio Doce.

Itaituba e o Tapajós: O médio Tapajós, com Itaituba como polo regional, é outra área histórica de garimpo de ouro no Pará. A região, conhecida como “Garimpo do Tapajós”, atraiu garimpeiros desde a década de 1950 e manteve atividade contínua até hoje, com ciclos de expansão e retração conforme a cotação do ouro. As dragas no rio Tapajós tornaram-se marca visual da região.

Marabá e o Sul do Pará: Marabá é o principal polo urbano do Sul do Pará e historicamente o entreposto comercial do garimpo regional. A cidade cresceu aceleradamente com as corridas do ouro e hoje é um centro de comércio, serviços e indústria mineral, embora o garimpo artesanal persista em sua área de influência.

Yanomami e Garimpo Ilegal: O nordeste do Pará e a área de influência do estado vizinho de Roraima foram palco de um dos maiores conflitos entre garimpo e povos indígenas da história brasileira. O garimpo ilegal em terras Yanomami, que cresceu dramaticamente entre 2019 e 2022, causou contaminação por mercúrio, disseminação de doenças e mortes na população indígena, culminando numa crise humanitária declarada em 2023 e em operações federais de remoção de garimpeiros.

Importância no Garimpo

O Pará ocupa um lugar único no garimpo brasileiro por várias razões:

Volume de produção: O estado é historicamente um dos maiores produtores de ouro do Brasil, disputando posições com Minas Gerais e Mato Grosso dependendo do período.

Escala e dramaticidade: A experiência de Serra Pelada redefiniu o que o garimpo artesanal podia ser — e também os limites do caos social que ele pode gerar. O legado de Serra Pelada está presente em toda discussão sobre regulação do garimpo no Brasil.

Conflitos fundiários e ambientais: O Sul do Pará é uma das regiões com maior número de conflitos por terra no Brasil, muitos deles ligados à fronteira entre garimpo, mineração industrial, agropecuária e territórios indígenas. A Amazônia paraense é o epicentro do debate nacional sobre como conciliar desenvolvimento mineral com proteção ambiental.

Carajás e a mineração industrial: A Mina de Carajás, operada pela Vale, é a maior mina de ferro a céu aberto do mundo. Embora não seja garimpo artesanal, ela define a importância estratégica do Pará no contexto mineral nacional e internacional, e seu entorno concentra cadeia de fornecedores que inclui pequenas operações.

Na Prática

Para quem trabalha ou estuda o garimpo no Pará, é importante entender as distinções entre as diferentes zonas produtoras:

Sul do Pará (Carajás, Serra Pelada, Marabá): Ouro em veios e placers de greenstones, com foco histórico em extração artesanal. A Serra Pelada hoje é objeto de disputas jurídicas entre a Cooperativa de Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) e a Vale, sem extração ativa regular.

Médio Tapajós (Itaituba, Novo Progresso): Garimpo de ouro em aluviões do rio Tapajós e afluentes, com uso intenso de dragas. A atividade é parcialmente formalizada, mas enfrenta questionamentos ambientais pelo impacto sobre a ictiofauna e pela contaminação por mercúrio.

Norte do Pará (Escudo das Guianas): Área com potencial geológico para ouro e outras substâncias, mas com sobreposição de Terras Indígenas e Unidades de Conservação que limitam legalmente a atividade de garimpo.

Para entender melhor o contexto histórico e técnico, consulte também os verbetes Ouro, Bateia, Placer e o guia de Técnicas de Garimpo.

Termos Relacionados

Perguntas Frequentes

A Serra Pelada ainda produz ouro hoje? Não em escala significativa. A mina está envolvida em disputas jurídicas entre a Cooperativa dos Garimpeiros (Coomigasp) e a Vale há décadas. O lençol freático invadiu a cratera, transformando-a num lago, e qualquer extração futura exigiria bombeamento intensivo e investimentos vultosos. Eventualmente a área pode ser retomada por mineração industrial, mas o garimpo artesanal de Serra Pelada como foi vivido nos anos 1980 pertence definitivamente à história.

O garimpo no Pará é legal? O garimpo de ouro é legal no Pará quando realizado com licença da ANM e autorização ambiental, fora de áreas protegidas e Terras Indígenas. Na prática, grande parte da atividade opera numa zona cinzenta entre o formal e o informal. O garimpo ilegal em Terras Indígenas — particularmente em territórios Yanomami e Kayapó — é explicitamente proibido pela Constituição e tem sido alvo de operações de fiscalização com diferentes graus de efetividade ao longo dos últimos governos.

O Pará tem outras gemas além do ouro? Sim, embora com menor expressão comercial. Turmalinas verdes e cromadas foram registradas em algumas áreas do estado. Crisoberilos aparecem em depósitos associados a pegmatitos na porção leste. O rio Tapajós e afluentes revelaram, em algumas dragagens, minerais pesados como zircão, ilmenita e rutilo. Cristais de quartzo fumê e ametista ocorrem em áreas de granito. Ainda há muito potencial gemológico no Pará não mapeado sistematicamente.

Quais são os impactos ambientais do garimpo de ouro no Pará? Os principais impactos documentados são: desmatamento e turbidez dos rios pelo desmonte hidráulico; contaminação por mercúrio dos rios, solos e cadeias alimentares (especialmente peixes consumidos por populações ribeirinhas e indígenas); erosão acelerada; perda de habitats para peixes migratórios; e conflitos com comunidades tradicionais dependentes dos rios. A quantificação desses impactos é objeto de monitoramento pelo INPE, IBAMA e organizações ambientais, que identificam correlação direta entre o aumento do garimpo ilegal e a piora dos indicadores ambientais na Amazônia paraense.